É hora de expor aqueles motivos que me levaram decididamente a mudar para digital.
O primeiro ponto que levei em conta na decisão entre película versus digital, foi a relação de custo. Como já disse anteriormente o custo de revelação e ampliação, principalmente quanto se trata de filme P&B de processamento manual, é bastante elevado e no meu caso havia se transformado em sério impedimento, fazendo com que fotograsse significativamente menos para minimizar os custos com o processamento do filme.
Mas aqui vale argumentar que o problema relativo a custos com filme pode ser minimizado sobremaneira construindo-se um laboratório em casa. Um kit de revelação, um ampliador e uma lâmpada vermelha e já temos o nosso lab! A técnica é simples e bem documentada. O custo do equipamento, apesar de relativamente elevado, justifica-se com base na economia que faremos ao revelar e ampliar as primeiras dúzias de rolos de filme em nosso próprio lab.
Entretanto há um “pequeno” problema: é necessário espaço. E espaço adequado e livre apenas para isso. Não dá pra montar o lab naquele quartinho dos fundos entulhado de caixas e bugigangas. Ora, pra quem mora num “apertamento”, pra quem guarda caixas de bugigangas até debaixo da cama, pra quem tem criança em casa, a coisa fica inviável.
A revelação digital, que como já discutimos antes é tão necessário na película quanto na digital, pode ser realizado em um espaço muito mais diminuto e que não requer as condições especiais, exigidas na revelação de películas. Estamos falando aqui de um simples mas bom computador. E para uma pessoa que, como eu, trabalha com informática todo santo dia, que já conta com equipamento adequado e que se sente mais familiarizado com o teclado e mouse do que com os próprios botões da camisa, a adaptação ao processo de revelação digital – e aqui falamos especificamente sobre o uso aprofundado e amplo do Photoshop ou do Gimp – constituirá em tarefa ordinária.
Ampliação é outro ponto importante. Afinal de contas, não quero tirar fotos para guardar no computador. Quero ampliá-las, transformá-las em quadros, em posters, em fotografia de verdade. Relutei por muito tempo em partir para digital por julgar que não existiam labs de ampliação realmente adequados a um bom trabalho fotográfico tal como era o caso da fotografia de película. Hoje a coisa é diferente e há realmente boas opções, personalizadas, e com custos atrativos e competitivos frente aos custos de revelação ordinária.
Também levei em conta a relação custo versus benefício no tocante ao equipamento digital. Até pouco tempo atrás, não existia efetivamente uma boa câmera digital a um preço, digamos assim, amigável. Na faixa das acessíveis, o que tinhamos eram equipamentos com sérias limitações de megapixels (impedimento a uma ampliação maior), limitações no sensor que ocasionavam “crop” (sérios limítes no uso de objetivas grande-angular), presença ruído (na medida em que se aumenta o ISO ou prolonga-se a exposição), além de limitações gerais nos recursos e funcionalidades (falta de spot-metering, sincronia de flash mais adequada, múltiplas zonas de metragem de luz, etc). Hoje, este quadro apresenta sinais de reversão que permitem a aquisição de um equipamento de melhor qualidade, sem que para tanto seja necessário vender o carro, a casa ou a mãe.
Observamos um fenômeno curioso com a fotografia digital. Como à princípio não há custos desnecessários com revelação e ampliação – e adiante falaremos mais sobre isso – o fotógrafo se sente mais liberto para registrar tudo quanto é momento, mesmo aqueles que não julgar interessante. Posteriormente ele pode decidir o que vale a pena guardar e o que pode ser descartado. Aliás, graça ao LCD presente em sua máquina ele pode decidir isso imediatamente, não é mesmo?
Aqui reside a primeira ilusão. De fato, os visores e LCDs presentes nas digitais são por demais diminutos para uma avaliação minimamente séria e precisa. O LCD permite não mais que avaliar o enquadramento geral enquanto que passam ao largo problemas relacionados a foco, contraste e cores. Ou seja, justamente os problemas mais sérios e frustrantes na fotografia. E passam desapercebidos, digo mais uma vez, porque o LCD não se presta para isso.
Acredito ainda que desta ilusão derive um outro problema. Diz respeito a educação e formação de um “olhar fotográfico”, ou seja, àquela maneira específica de ver as coisas sob a ótica particular da fotografia. O problema aqui é que o fotógrafo não mais desenvolve ou exercita um senso crítico e seletivo tal como antes ocorria com a fotografia de película. Antes, a falta de critérios seletivos para a determinação do melhor momento para tirar aquela foto, significava apenas uma coisa: dinheiro jogado fora. Com as digitais, o dinheiro deixou de ser um impedimento (custos com revelação e ampliação) e os critérios puderam ser colocados de lado, permitindo-se o luxo de, como já dissemos antes, registrar mesmo os momentos mais banais e sem expressão fotográfica.
Outra fantasia é pensar que a digital facilite o trabalho. Parte desta ilusão é decorrente do que expomos acima quanto a visualização imediata. Outra parte é decorrente da ilusão de que o fluxo de trabalho com as digitais se altere significativamente e até mesmo diminua. Vejamos pois como era o fluxo de trabalho com película:
Filme -> Exposição -> Revelação -> Ampliação
Agora, observaremos como se dá esse fluxo com a introdução das digitais:
Sensor -> Exposição -> Revelação -> Ampliação
Apenas a primeira fase sofreu alteração. Todo o restante do processo permanece inalterado, incluindo a fase da revelação. E é aqui que as cabeças dão nó: existe uma fase de revelação com as digitais também!
É claro que não usamos química nem necessitamos de um quarto escuro, mas é fato que a imagem digital requer tratamento adequado antes de se partir para a impressão final. E dependendo do equipamento (e do fotógrafo), a revelação de digital pode tomar um tempo imenso, requisitando conhecimentos muito abrangentes e também pontuais. Tempo e conhecimentos significativamente maiores que aqueles consumidos no processo de revelação convencional.
Por não considerarem e nem sequer imaginarem, que tal coisa seja necessária, muitos marinheiros de primeira viagem – iniciantes, amadores e profissionais – se decepcionam enormemente com a fotografia digital, primeiramente julgando que esta útima irá resolver todos os problemas e imperfeições suas e do equipamento, e por fim descobrindo que nada disso é verdade: além dos problemas que enfrentava com película, agora passam a enfrentar novos problemas com a digital!
Muito mais pode ser refletido sobre este “boom” das digitais e os problemas e ilusões daí decorrentes. Por ora nos limitaremos a sintetizar as coisas da seguinte maneira:
Este renascimento da fotografia, que presenciamos hoje com as digitais, não vai além de carne-de-segunda. Todos comem e em quantidade. Mas poucos se dão conta da qualidade daquilo que consomem.
Há de reconhecer que nem sempre a caixa é um grande problema.
Desde criança sou fascinado por fotografia. A história começa a partir de um livro de técnica fotográfica, ricamente ilustrado, que existia lá em casa. As imagens, na sua maioria retratos, eram belíssimas e captavam a personalidade dos fotografados de tal modo que deixou o garoto deveras impressionado. E mais impressionava ainda as fotos P&B. Textura, contraste, simplicidade, intensidade e foco, estas eram as palavras chaves que definiriam aquilo que me impressionava na época.
Anos se passaram. Já havia esquecido do livro de infância e da própria fotografia, quando me deparo com o trabalho de Sebastião Salgado. Por ora, não creio ser necessário escrever qualquer coisa a mais sobre isso senão que esse contato com Salgado fez emergir, lá do fundo do poço do esquecimento, todas as sensações e fascínios que a fotografia me causara na infância.
Foi assim que comprei minha primeira câmera fotográfica.
Saudações e seja bem vindo.
Inicio este blog com o intuito de relatar minha experiência com fotografia, mais especificamente minha relação com a Canon EOS 5D.
Meu relato seria de todo incompleto se meramente partisse do fato de já dispor da câmera e já possuir certa experiência com ela. Não é este o caso.
De fato, ainda não tenho a câmera. A EOS 5D chegará as minhas mãos somente daqui a algumas horas, 12 para ser mais exato. E, naturalmente, há uma imensa expectativa e uma grande ansiedade. Creio mesmo que estas próximas 12 horas durarão uma eternidade.
Por que a Canon EOS 5D? Por que digital? Por que não pegar uma câmera mais barata ou por que não a EOS 30D ou a Nikon D200? Estas foram as perguntas que me fiz e que me conduziram até este blog.
Mas não farei uma longa dissertação logo no primeiro post e provavelmente em nenhum outro. Afinal de contas, isto aqui é um blog, não uma tese de mestrado! Procurarei pois responder a estas perguntas de modo breve e ao longo do tempo. Obviamente muitas coisas “históricas” sairão entrecortadas com o presente e até mesmo com divagações acerca do futuro. Já para as próximas horas esperem um post detalhando minhas primeiríssimas impressões com o novo equipamento que estou adquirindo.